Quem perde com a sobretaxa de importação - Colunas - Boletim da Liberdade

Quem perde com a sobretaxa de importação

13.02.2019 03:05

“Comunico aos produtores de leite que o governo manteve o nível de competitividade do produto com outros países. Todos ganharam, em especial, os consumidores brasileiros.”

Essa foi a mensagem que Jair Bolsonaro transmitiu ao povo após aumentar o imposto de importação do leite de 28% para 42%. Ficou a dúvida sobre como os consumidores saíram ganhando com essa medida.

Há não muito tempo, o agora presidente chegou a afirmar que “as minorias teriam que se submeter a vontade da maioria”. Não foi dessa vez que essa promessa se realizou. Nesse aumento, o lobby agropecuário das minorias produtoras falou mais alto do que a maioria da população, que esperava ter a oportunidade de uma oferta mais barata de leite.

Sabe-se bem que essa medida afeta, principalmente, as classes mais pobres da população. Para elas, qualquer diminuição do valor do bem ofertado faz grande diferença no orçamento doméstico.

Bolsonaro não só foi contra o bolso do consumidor, mas também contra o seu discurso – e promessa de campanha – de tornar a economia brasileira mais liberal. O presidente também acabou indo contra sua equipe econômica, de viés liberal.

Dificultar a oferta de produto estrangeiro cria uma demanda não-natural pelo produto interno, subsidiado, sem que haja uma disputa real no mercado.

Na era da tecnologia, temos a prova real de que as leis do mercado são as que mais beneficiam a população, especialmente a mais pobre. A disputa comercial entre Uber e a 99 tem feito as passagens chegarem próximas a zero, por exemplo. Em busca da predominância comercial, as empresas lançam seguidos incentivos para que o consumidor tenha descontos nas suas corridas.

Voltar do trabalho de carro, numa viagem confortavelmente individual, seria impensável para as classes menos privilegiadas há 10 anos. Hoje, graças ao embate predatório por mais consumidores, é possível fazer isso ao custo de uma passagem de ônibus. Essa disputa comercial está presente nos mais diferentes segmentos de comércio e serviço, incluindo o arcaico setor bancário.

Bolsonaro, ao aumentar a taxa sobre a importação, esqueceu do célebre raciocínio de Adam Smith:

Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter.

Em outras palavras: ninguém levanta cedo, produz com qualidade e oferta a baixo custo por caridade. Os produtores fazem isso pensando no mercado consumidor, em como um preço menor pode influenciar uma demanda maior. Ganha na quantidade, no estabelecimento de marca, na confiança do consumidor.

Infelizmente, o lobby agropecuário ganhou. Quem perdeu outra vez foram nós e o sonho de uma economia mais liberalizante. Resta saber agora se Bolsonaro vai se curvar à vontade de todos os setores da economia nacional, quando pressionado. E, caso não se curve, como será que eles vão reagir. Esse episódio foi um péssimo precedente de rompimento com o discurso liberal. Não que já não fosse esperado.

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