Bolsonaro, o pseudoliberal - Debate Aberto - Boletim da Liberdade
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Bolsonaro, o pseudoliberal

24.05.2020 06:03

*Matheus Schilling

O comprometedor vídeo de Bolsonaro foi divulgado e, para a surpresa de todos, não foi a bala de prata que o ex-Juiz Federal Sérgio Moro prometeu. O vídeo demonstrou uma série de fatos e fatores que indicam como atua o grupo de ministros do governo, bem como o que realmente pensam alguns de seus integrantes.

Porém, o que vou analisar com cuidado são as falas do Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro.

A análise isolada da fala relativamente liberal de Bolsonaro pode indicar um certo alinhamento ideológico com as ideias da liberdade. Entretanto, analisando individualmente determinadas ações ou falas de cada governante, por mais que sejam notoriamente de ideologia diferente, podemos descrevê-los como “liberais”.


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Alguns exemplos são o ex-Presidente Lula defendendo o livre-mercado como forma de sair de uma crise e a ex-Presidente Dilma defendendo a Reforma da Previdência. Enfim, diversos atos individuais de cada político, quando isolados, podem indicar que eles são arautos da liberdade, mas sabemos que não é bem assim. Analisar apenas a fala do Presidente Bolsonaro e ignorar os seus dois anos de mandato é irresponsável, principalmente quando se trata de um político tão controverso.

Não é novidade que Bolsonaro tem falas que diferem de seus atos. Para ressaltar esse ponto é importante apontar o histórico do Presidente. Bolsonaro afirmou, assim que assumiu o governo, que o Ministro Sérgio Moro receberia carta branca para sua atuação e que o Presidente não iria se intrometer no Ministério da Justiça. Entretanto, isso não se mostrou verdade, com Bolsonaro demonstrando que queria trocar a Diretoria da PF para cessar com a perseguição de seus aliados políticos e, inclusive, interferir na superintendência do RJ para amenizar as investigações contra seu filho.

Bolsonaro sempre comentou que não aceitaria corrupção no seu governo e que ministros seriam trocados, o que não se mostrou verdade

Além disso, Bolsonaro sempre comentou que não aceitaria corrupção no seu governo e que ministros seriam trocados, o que não se mostrou verdade quando seu Ministro do Turismo foi indicado pela PF pelo caso das candidaturas laranjas e o Presidente o manteve no governo. Ou ainda, Bolsonaro sempre dizendo ser contra a corrupção, interferiu no COAF após investigação de seu filho, tirando-o da pasta do Ministério da Justiça e transferindo-o para o da Economia, longe das mãos de Moro, bem como o Presidente teve sua postura criticada por Procuradores da aclamada operação Lava Jato no combate à corrupção. Outro incoerência de Bolsonaro foi na escolha de cargos. Isso porque sempre se mostrou contra a negociação de cargos por questões puramente políticas, afirmando que isso não ocorreria em seu governo, o que se mostrou uma inverdade recentemente.

Ainda, desesperado diante da situação do vídeo e tentando de tudo para se salvar, mentiu que não falou Polícia Federal no vídeo, mas que falou as letras “PF” e que, por alguma razão, esta não seria uma alusão à Polícia Federal. Como é possível notar, não é difícil transcorrer sobre as contradições e polêmicas do governo.

O que me impressiona, porém, é a necessidade que as pessoas mais alinhadas à direita ou as anti-esquerda têm de defender o Presidente quando ele tem alguma fala que indica uma possível defesa de parte do liberalismo ou de parte das ideias dos liberais. Cria-se uma narrativa buscando negar ou ignorar erros passados do governo como justificativa plausível para que Bolsonaro se mantenha no governo, por medo de que a esquerda novamente tome o poder.

O relativismo que a esquerda usa para defender Lula apenas porque ele é de esquerda é duramente criticado por todos. Entretanto, a defesa dos militantes bolsonaristas perante a frase “Não vou esperar foder minha família toda, de sacanagem, ou amigo meu, por que eu não posso trocar alguém”, que Bolsonaro falou no vídeo da reunião ministerial, bem como da mensagem que o Presidente enviou ao então Ministro Sérgio Moro insinuando que deveria ser trocada a diretoria da PF pois estava investigando aliados do governo, não se difere dos cegos defensores do condenado petista. É importante nos lembrarmos que o “tem que manter isso aí, viu?” de Temer, uma frase dita em contexto mais subjetivo que o da reunião ministerial, foi um escândalo nacional que quase acabou com o governo.

Por mais que Bolsonaro possa ter alguma afinidade ideológica com as ideias liberais – e importantes medidas como a MP da Liberdade Econômica e a Reforma da Previdência devam ser elogiadas – isso não o torna isento ou blindado de quaisquer críticas de seu governo, que devem ser feitas pelos liberais e conservadores com a mesma intensidade que fariam em qualquer outro governo. Caso contrário, eles correm o risco de deixarem de ser ideológicos para serem partidários com culto à personalidade.

*Matheus Schilling é consultor político e assessor jurídico do Ideias Radicais

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal.


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