O vírus disseminado pelo Partido Novo no movimento liberal - Debate Aberto - Boletim da Liberdade
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O vírus disseminado pelo Partido Novo no movimento liberal

12.05.2020 03:17

*João César de Melo

Há dez anos, comecei a dedicar mais tempo a leitura. História e filosofia. Garimpando num sebo em São Paulo, achei Economia do Indivíduo, publicado em 2009 pelo ainda não famoso – e completo desconhecido por mim − Rodrigo Constantino. Foi o livro que me introduziu no liberalismo, onde conheci diversos autores, que me levaram a muitos outros.

Em 2014, publiquei meu livro Natureza Capital. Nesse mesmo ano, o Instituto Liberal começou a publicar meus artigos e eu comecei a conhecer canais liberais na internet, acompanhar alguns liberais pelo Facebook e a participar de alguns eventos.


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Em 2015, o movimento liberal encorpou-se. Ganhou as ruas. Foi pauta nos protestos pelo impeachment. Canais liberais na internet ficaram populares. Livros de autores liberais começaram a se destacar entre os mais vendidos.

Até 2017, o Partido Novo era só uma conversinha de fundo. Ninguém conhecia seu fundador.

Nunca havia dado as caras num evento liberal. Nunca havia doado um centavo de sua fortuna para um livro ou canal liberal

No ano seguinte, João Amoedo apareceu exigindo a militância de todos os liberais. Nunca havia dado as caras num evento liberal. Nunca havia doado um centavo de sua fortuna para um livro ou canal liberal, mas exigiu que todos os liberais lhe prestassem continência.

Em 2018, o Brasil estava num dos momentos mais tensos de sua história. À esquerda, tínhamos um candidato que prometia implantar o mesmo programa econômico que levou o país à recessão, soltar um ex-presidente preso por corrupção e reatar as alianças com ditaduras comunistas. À direita, tínhamos um candidato que prometia implantar um programa liberal na economia e se alinhar com os países mais desenvolvidos do mundo. Ambos estavam próximos um do outro no topo das pesquisas eleitorais. Qualquer um deles poderia ser eleito. Mas, João Amôedo, com cerca de 3% de intenção de votos, estava interessado apenas em si mesmo, exigindo que todos os liberais votassem nele, mesmo que esses votos pudessem favorecer o candidato socialista.

Faltando 10 dias para o primeiro turno, publiquei um texto no meu perfil pessoal do Facebook explicando a razão de deixar de apoiar Amoedo para apoiar Bolsonaro. Viralizou. Tive mais de 72 mil compartilhamentos diretos e conquistei a fúria dos partidários do Novo. Fui insultado e até ameaçado de formas idênticas às que víamos de petistas até alguns anos atrás e dos bolsonaristas nos dias de hoje, diante qualquer dissidência. Com mais de 200 artigos publicados no Inst. Liberal até aquele momento, fui chamado de fascista.

Lembro-me de uma mulher, com o avatar do Amoedo como foto de perfil no Facebook, que comentou o seguinte: “não nos esqueceremos disso, você pagará pelo que está fazendo”. O que mais me chamou a atenção foi a conjugação do verbo no plural: “não nos esqueceremos”.

Até alguns meses antes, eu era constantemente assediado para me filiar ao Novo. Cheguei a me encontrar com alguns membros do partido. Um deles, fez questão de expressar sua simpatia por Alckmin. O outro, disse que era a favor do desarmamento. Um terceiro, disse que era melhor o PT voltar do que ter um conservador na presidência.

João Amoêdo, dada a gravidade da situação, poderia ter dito: “apoiamos Jair Bolsonaro por causa de seu programa liberal e para evitar a volta do PT ao poder”

Haddad e Bolsonaro foram para o segundo turno. João Amoêdo, dada a gravidade da situação, poderia ter dito: “apoiamos Jair Bolsonaro por causa de seu programa liberal e para evitar a volta do PT ao poder”. No entanto, ele vestiu a capa dos covardes e se absteve. Logo que o governo Bolsonaro começou, Amoêdo e o Partido Novo posicionam-se como oposição. Votavam a favor dos projetos liberais propostos pelo governo mas, publicamente, tinham apenas críticas a ele. Nenhuma crítica construtiva. Todas sistematicamente feitas para enfraquece-lo. Uma postura no mínimo esquisita para um partido liberal que tinha, diante de si, um governo tentando aprovar reformas liberais.

Diante disso, lembro-me de três outras coisas:

Fernando Henrique Cardoso já foi visto como liberal, devido ao seu programa de privatizações e de abertura do mercado. Hoje, sabemos o que ele é.

O apoio dos liberais que João Dória conquistou em sua campanha à prefeito de São Paulo, em 2016. Passados poucos anos, ele protagoniza (com apoio do Partido Novo) o maior programa de cerceamento da liberdade econômica e de circulação da história do Brasil, trocando elogios com Lula, sendo apoiado por toda a imprensa e por todos os partidos de esquerda.

Resumo da biografia do atual governador de São Paulo: um milionário que um dia desses resolveu dar um pouco de emoção a sua vida, ser presidente da república. Comprou o PSDB, exigiu que todos os tucanos se ajoelhassem aos seus pés e hoje prioriza acordos comerciais com a maior ditadura comunista do mundo, responsável pela pandemia que nos inferniza.

Quando vejo Amôedo, eu sempre me lembro de Dória.

A expulsão de Ricardo Salles do Partido Novo revela que o partido que se diz liberal é, sobretudo, um partido político que, como qualquer outro, é fundamentalmente uma organização socialista.

Partidos sempre priorizam seus interesses políticos, principalmente os do seu dono. Seus filiados não têm o direito de pensar e agir por si mesmos, são utilizados como ferramentas de manipulação popular e das instituições democráticas. Princípios disso ou daquilo são apenas artifícios midiáticos e eleitorais. Todo partido quer governar as massas, ser o dono das decisões; e quanto mais à esquerda, menos tolera divergências.

O Novo pode inventar a justificativa que quiser, mas todos nós sabemos que Salles foi expulso apenas por integrar um governo de direita.

Lamentavelmente, muitas pessoas que se dizem liberais não toleram os conservadores. Sentem-se confortáveis entre sociais-democratas, não entre “reaças”. No mínimo, uma incoerência teórica, porque os dois grupos compartilham princípios fundamentais: liberdade econômica, descentralização de poder, autonomia e responsabilidade individual. Ter os conservadores como inimigos é rejeitar o próprio liberalismo.

Voltando mais uma vez no tempo, lembro-me muito bem de como era o movimento liberal antes da chegada do Partido Novo. Liberais, conservadores e libertários sentavam-se juntos, organizavam eventos, somavam forças contra o petismo. Hoje, as coisas não são mais desse jeito. O Partido Novo disseminou o vírus da discórdia por meio de seus militantes. Liberais que não se alinham ao Novo, não são reconhecidos como liberais. Estão sempre patrulhando. “Você apoia o governo ou é liberal de verdade, como nós?”, é a mentalidade que se manifesta. Esforçam-se em conquistar apoio na esquerda, não na direita. Curiosamente, estão conseguindo cada vez mais espaço na grande imprensa, historicamente socialista.

Com isso, o Novo vem fragmentando o movimento que tirou o PT do poder, exigindo militância de todos os liberais não apenas em seu favor, mas contra aqueles que ele aponta como inimigo.

Tenho uma pergunta: o Partido Novo está formando, junto com o PSDB de João Dória, a “nova esquerda” brasileira?

É só uma pergunta. Tem alguém para responder?

Enquanto isso, afirmo que o Partido Novo não representa o movimento liberal. No máximo, tem em seus quadros alguns liberais. É apenas um partido político, com interesses políticos. Os liberais não precisam de um partido para chamar de seu. Manifestem suas ideias, apoiem qualquer governo que ofereça algum avanço na área liberal, mas nunca se submetam ao comando de um partido político.

*João César de Melo é arquiteto e escritor.

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal.


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