Votação de denúncia contra Temer cria polêmica no ecossistema pró-liberdade

Principalmente o voto de Jair Bolsonaro, que apoiou o prosseguimento imediato da denúncia, foi alvo de contestações e debates entre influenciadores

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(Foto: Reprodução / G1)
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A denúncia do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer já vinha sendo causa de discussões entre influenciadores, partidos e movimentos nos meios liberais e conservadores. Algumas figuras, como o ex-diretor do Instituto Liberal Bernardo Santoro e o jornalista Paulo Eduardo Martins, já haviam se posicionado com receio em relação a um eventual afastamento do mandatário peemedebista, que poderia ser uma estratégia para o retorno de Lula e do PT.

Esse cálculo foi contraposto por outros grupos, como o PSL/Livres e o Vem Pra Rua, que não admitem o que consideram uma contemporização com um presidente corrupto. Nesta quarta-feira, dia 2, essa divisão ganhou novos capítulos com a votação em que, com um placar de 263 a 227, foi aprovado o relatório que arquiva a denúncia e adia seu prosseguimento para depois do mandato.

Dois partidos e dois movimentos: opiniões variadas

Os dois partidos que se destacaram na tentativa de representar as vertentes liberais, o NOVO e o PSL/Livres, manifestaram posições de reprovação ao resultado. No entanto, é impossível negar que o PSL/Livres tem sido o mais ativo no combate ao presidente, na medida em que convocou manifestações de rua para reivindicar a sua queda. Em nota oficial, o LIVRES “reafirma o seu posicionamento em defesa das investigações com a convicção de que devemos passar o país a limpo até as últimas consequências”.

O LIVRES entende que “somente dessa forma seremos capazes de restabelecer um quadro de normalidade institucional e promover as transformações necessárias para a construção de um país mais justo, próspero e livre”. A corrente renovadora aproveitou a oportunidade para lembrar que o partido como um todo, isto é, o Partido Social Liberal, ainda não foi completamente transformado pelo movimento. Isso explica os votos dos deputados federais Luciano Bivar e Dâmina Pereira, que, “apesar de nossos apelos, se posicionaram pela interrupção das investigações contra o presidente Temer”.

(Foto: Reprodução / Facebook)
(Foto: Reprodução / Facebook)

Já o NOVO havia feito, nos dias anteriores, críticas em sua página no Facebook ao aumento de impostos determinado pela equipe econômica do governo. Agora, o partido se manifestou a respeito de uma notícia da Gazeta do Povo que falava em uma manobra da oposição para votar a denúncia durante o horário de transmissão das novelas da Globo. Segundo o NOVO, “um presidente denunciado pelo Procurador Geral da República precisa ser deliberado pelos representantes eleitos pela população, independentemente da decisão de cada um” e “as acusações são graves”. A manifestação vaga ensejou perguntas na seção de comentários e aí sim, respondendo a um seguidor, o partido respondeu qual era sua posição: “A FAVOR do acolhimento da denúncia, de modo que o processo proceda”.

Já os dois maiores movimentos que pediram o impeachment de Dilma tiveram posições diferentes. O Movimento Brasil Livre se limitou a noticiar a votação e seu resultado; no entanto, fez uma publicação sobre o pronunciamento feito por Temer após a sessão, acompanhada apenas de uma frase do presidente: “Não é uma vitória pessoal e sim uma conquista do Estado Democrático de Direito”. A publicação foi excluída pouco depois. Ao contrário, o Vem Pra Rua se indignou, afirmando que é “mais um dia triste para a história do país” e “precisamos ir para a rua no dia 27/08”.

O voto de Bolsonaro

Mais do que a situação do presidente Temer, porém, o voto de Jair Bolsonaro – para muitos dos autointitulados liberais e conservadores, o candidato a ser votado para a presidência em 2018 – provocou comentários e embates virtuais. Bolsonaro escolheu votar a favor do prosseguimento da denúncia e muitos influenciadores julgaram que, com isso, ele auxiliou os interesses do PT de Maria do Rosário.

Carlos Andreazza, editor-chefe da Record, foi um dos primeiros a ironizá-lo: “Jair Bolsonaro, Jandira Feghali e Jean Wyllys votando em sequência, juntinhos e igualzinho. Não houve cusparada hoje”. Já Luciano Ayan, dono do blog Ceticismo Político, fez uma série de publicações em seu perfil no Facebook criticando a atitude de Bolsonaro. Em uma das primeiras, Ayan pontuou o que acredita que Bolsonaro deveria ter feito: “O que o Bolsonaro deveria fazer? Simples. Declarar: ‘O Temer fica até o fim, e depois do mandato vai ser investigado sim. Não vamos antecipar as coisas só porque Janot e a escória do PT estão exigindo. Chola mais!’. Isso é o que alguém de direita deveria fazer. Mas não… o sujeito vai lá e dá o voto EXIGIDO pela bancada do PT, do PCdoB, do PSOL e da Rede. Clap, clap, clap…”

Rodrigo Constantino e Flavio Bolsonaro (Foto: Reprodução / Youtube)
Rodrigo Constantino e Flavio Bolsonaro (Foto: Reprodução / Youtube)

Opinião similar apresentou o economista, escritor e colunista da Gazeta do Povo, Rodrigo Constantino. Em artigo para a Gazeta, ele ressaltou: “Se é guerra, e se a guerra é basicamente contra o comunismo, o socialismo, o petismo e mesmo o ‘fabianismo’, então a última coisa que um soldado deveria fazer nessa guerra é votar de acordo com o que deseja o PT e o PSOL, não é mesmo? Vai dar munição grátis assim para o inimigo? Ah, mas é preciso deixar claro que todos são iguais, ninguém presta, é tudo farinha do mesmo saco, pois só ele, o mito, o messias, será o salvador da Pátria, sozinho!”. Em outro post, Constantino disse que “se o PT e o PSOL repetirem em coro que o céu é azul, eu digo que ele é roxo!”.

Bernardo Santoro, que foi diretor-presidente do Instituto Liberal e atuou na campanha de Pastor Everaldo à presidência pelo PSC, replicou o pensamento de seu amigo advogado Lucio Hoffmann, que afirmou ter ficado em dúvida pela primeira vez a respeito da votação, pois “os argumentos de ambos os lados são fortes”: se não se pode “tolerar um presidente bandido”, também não se pode “tolerar a volta do PT e cia. ao poder” e, de certo, apenas que foi “uma vitória de Pirro”.

Santoro acrescentou que disse pessoalmente a Bolsonaro que votaria de maneira diferente, mas que não condenaria seu voto, pois “é uma situação que está num limite cinzento muito grande”. A popular economista liberal Renata Barreto, por sua vez, comentou: “Se nem o TSE cassou a chapa Dilma-Temer, em nome de uma estabilidade, quando era clara a fraude eleitoral, achavam mesmo que um Congresso cheio de pilantras iria votar para tirar Temer?? Ainda mais com dinheiro correndo solto e muito rabo preso? E o pior é saber que ele sair poderia ser ainda mais trágico, honestamente nem sei mais”.

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