“Gostaria que os antecedentes nacionais das ideias liberais e conservadoras fossem mais importantes”, afirma Lucas Berlanza

Em entrevista exclusiva ao Boletim da Liberdade, o jornalista Lucas Berlanza, colunista do Instituto Liberal, aborda o lançamento de seu primeiro livro: “Guia Bibliográfico da Nova Direita”

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Foto: Divulgação
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No auge de seus 24 anos, o jornalista Lucas Berlanza lança nesta quarta-feira (28), no Rio de Janeiro, seu primeiro livro: Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro, pela editora maranhense Resistência Cultural. A obra marca o ápice de uma carreira meteórica no novo movimento liberal e conservador do país, trajetória que começou a ser formada desde o seu tempo de faculdade, quando ousou debruçar-se a retratar a história do também jornalista Carlos Lacerda (1914-1977).

Escrevendo há aproximadamente cinco anos para o tradicional Instituto Liberal do Rio de Janeiro e, mais recentemente, assinando uma coluna mensal para o jornal Gazeta do Povo, do Paraná, o autor também mantém o blog “Sentinela Lacerdista”. Um espaço para comentários políticos sob um viés liberal-conservador que no próprio nome não esconde a inspiração no estilo retórico do político fluminense que marcou a história da República Nova (1946-1964).

“Outra característica sua interessante é o apreço por nossas raízes, pela cultura nacional que, mal ou bem, fez do Brasil o que ele é hoje”, descreve o economista Rodrigo Constantino, que assina o prefácio da obra, classificada por ele como “espetacular”. “Seus textos eram sempre muito bons e, confesso, estavam invariavelmente entre os meus preferidos.” Entre os livros e os artigos, Berlanza dedica-se também a palestras (no início do mês, foi convidado para palestrar na V Semana da Liberdade, promovida no Nordeste), ao Comitê Editorial deste Boletim, do qual é um dos membros, e ao samba – materializado na paixão pela escola de samba União da Ilha, no Rio de Janeiro.

Na conversa que se segue, Berlanza fala, entre outros assuntos, sobre o que entende como nova direita, seu posicionamento ideológico e como foi feita a seleção de autores para o livro. Confira:

Boletim da Liberdade: Seu primeiro livro se propõe a ser um guia para a “nova direita”. Afinal, o que é a “nova direita”?

Lucas Berlanza: Desde a Introdução, preocupo-me em deixar claro que não estou tratando de um conceito rigorosamente “científico”, com uma acepção universalmente reconhecida, mas sim trabalhando com uma expressão aproximativa de força retórica, simbólica e identitária, sobretudo para o próprio “movimento” – ou “fenômeno”, como prefiro chamar, já que não há qualquer autoridade centralizada – a que ela costuma se referir. Não parece haver muita discordância da afirmação de que ideias diferentes começaram a circular com mais força nos últimos tempos, em especial após o colapso do modelo lulopetista e a penetração de uma bibliografia diferenciada em matéria de pensamento político, alastrada pelo trabalho de instituições e formadores de opinião. Isso tudo muito fortalecido, é claro, pela era da Internet.

Contra aquilo que se convencionou chamar, com base no jargão das Assembleias Francesas, “esquerda” – grosso modo, a crença política no igualitarismo como dogma, a devoção ao messianismo dos “líderes populares”, da “justiça social”, do Estado inchado -, começaram a despontar vozes cada vez mais organizadas. É verdade que a pluralidade interna é notória e isso afeta cada grupo social de maneiras diferentes: surgem aqueles que paradoxalmente querem eleger um novo mito salvador, alheios ao saudável ceticismo político; há os que têm saudades de regimes militares; há os que querem a volta da monarquia; há os que querem a abolição absoluta do Estado. Tudo isso é chamado, até pela mídia, de “Nova Direita”.

Em meu livro, promovi um recorte. Optei por dar destaque ao que considero as duas grandes matrizes de ideias por parte da dimensão mais “intelectualizada” da assim chamada “Nova Direita”: o liberalismo e o conservadorismo político. De uma forma ou de outra, as seções do livro, através dos ensaios sobre as obras selecionadas, se concentram em explicar a genealogia dessas duas ideias, apreciar suas relações e subdivisões e relacioná-las ao Brasil, mas na medida do possível essas demais nuances colaterais – como monarquia e militarismo – também são mencionadas.

Optei por dar destaque ao que considero as duas grandes matrizes de ideias por parte da dimensão mais “intelectualizada” da assim chamada “Nova Direita”: o liberalismo e o conservadorismo político. 

Boletim da Liberdade: Como cada obra foi abordada e qual foi o critério de escolha dos livros para caracterizá-los como relevantes para se entender a “nova direita”?

Lucas Berlanza: Os ensaios têm características diferentes; na maioria deles, procuro destrinchar as ideias fundamentais contidas em cada um dos livros, introduzindo contextualizações e apreciações críticas – afinal, como advirto na Introdução, o livro não é nenhum tratado antropológico, e tem uma forte e propositada dose de subjetividade. Minhas opiniões, a minha personalidade, meu testemunho, tudo isso está ali. Em alguns poucos casos, preferi dar mais destaque a alguns aspectos específicos do livro em questão, sem abrangê-lo no todo.

O critério de escolha foi a adequação a uma estrutura narrativa, pensada antes de todos os ensaios estarem prontos, o que levou alguns livros a serem escolhidos depois para preencher lacunas. Todos os livros estão adequados à “história”, à mensagem que quero passar em cada seção. A ideia é que essa construção teórica se amarre, independentemente das diferenças entre os ensaios. Não são também, todos os livros, apenas os que são efetivamente mais populares na “Nova Direita”; alguns livros, como o de Merquior, não são tão lidos assim, mas são úteis para compreender essa estrutura genealógica de ideias. O ensaio sobre “O Liberalismo Antigo e Moderno” mostra as subdivisões internas e a história do liberalismo, o que é excelente para compreender o seu conceito e sua formação, independentemente da sua popularidade real entre a jovem direita brasileira.

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Boletim da Liberdade: Você dedicou uma parte do seu livro apenas com obras de “adversários e inimigos”. Entre eles, Hitler, Mussolini, Marx, Geisel e Fernando Henrique Cardoso. Por que dedicar uma seção significativa do livro apenas para ideias diferentes e por que colocar FHC, muito admirado por liberais e conservadores, como adversário?

Lucas Berlanza: Por dois motivos, basicamente: o primeiro, o interesse de desfazer confusões. Essas matrizes liberais e conservadoras das quais falei são comumente confundidas com doutrinas ou ideias completamente opostas ao que elas defendem – uma confusão que atende aos interesses de quem não quer a divergência. Chamam-nos de nazistas, fascistas, militaristas… Então, me parece útil que, num livro com o propósito de oferecer um guia panorâmico do que afinal de contas nós pensamos, sejamos colocados diretamente em confronto com essas correntes. O segundo, se é que podemos separá-lo do primeiro, é o entendimento de que uma coisa é melhor entendida quando comparada ao seu contrário. É um exercício de posicionamento que considero eficaz, e gostaria que mais liberais e conservadores procurassem conhecer aquilo que estão enfrentando.

O entendimento de que uma coisa é melhor entendida quando comparada ao seu contrário. É um exercício de posicionamento que considero eficaz, e gostaria que mais liberais e conservadores procurassem conhecer aquilo que estão enfrentando.

Em relação a FHC, não deixo de reconhecer valores em sua atuação ou até mesmo em suas ideias, mas é notório que não é um liberal ou um conservador e dá suporte a agendas que não são as nossas. Aqui é interessante fazer diferença entre as duas categorias: os adversários e os inimigos. Os adversários nos enfrentam, nos desafiam, nos querem derrotar. Os inimigos querem nos aniquilar. Um oponente que deseja a censura, movimentar “exércitos” de “movimentos sociais” contra nós, patrocinar tiranias, é um inimigo. Um oponente que deseja divergir de nossas ideias dentro do ritual democrático é um adversário.

Boletim da Liberdade: A seleção de autores que você trouxe no livro é bastante diversa, tanto ideologicamente quanto em termos de popularidade. Por que você optou por rotulá-los todos como “direita” e qual é a sua concepção de “direita” e “esquerda”?

Lucas Berlanza: Pondo-se à parte a seção de adversários e inimigos, acredito que a razão de ser das outras seções já foi explicada: expressar os conceitos e a formação das ideias liberais e conservadoras, sua exposição e articulação no mundo e particularmente no Brasil – dando destaque ao recorte com que essa bibliografia chega aos jovens liberais e conservadores que estão se formando hoje. Por “Nova Direita”, o livro engloba todos os tipos de conservadores e liberais existentes no Brasil, em seus diferentes matizes – mas principalmente aqueles que costumam apreciar mais esse rótulo, ou seja, os liberais clássicos e os conservadores de inspiração burkeana. É, novamente, um rótulo aproximativo, jamais capaz de dar conta da intimidade específica dos fatos, mas apropriado para um livro que quer ser um guia panorâmico e não “localizado”, concentrado apenas em um ponto ou um tipo de autor.

Não é exatamente verdade também que eu esteja rotulando todos os autores como “direita”. Os adversários e inimigos obviamente não estão aqui para serem considerados “parte do grupo”. Quanto ao resto, o livro se propõe um guia bibliográfico para entender e localizar o pensamento dessa “direita” e não são só os seus “membros plenos” que são úteis para a compreensão contextual de seu pensamento. Merquior, por exemplo – vou usá-lo de novo porque acho o melhor exemplo de tudo isso -, preferia se definir como um “social liberal” e não tinha uma identificação estética com a ideia de “direita”, mas aborda em seu livro as diferentes categorias de liberais e a origem do liberalismo, entre elas estando o liberalismo conservador e o conservadorismo liberal, com autores como Burke e Hayek – esses sim referências para quem se diz “de direita” hoje no Brasil.

O livro se propõe um guia bibliográfico para entender e localizar o pensamento dessa “direita” e não são só os seus “membros plenos” que são úteis para a compreensão contextual de seu pensamento. Merquior, por exemplo – vou usá-lo de novo porque acho o melhor exemplo de tudo isso -, preferia se definir como um “social liberal” e não tinha uma identificação estética com a ideia de “direita”

Já apresentei o que entendo, grosso modo, dentro dessa consciência de que os significados não são universais e absolutos, como “esquerda”, mas posso desenvolver aqui: compreendo sob esse rótulo a postura do anseio de desconstruir os padrões e referências da civilização, por promover o desenvolvimento social através do agigantamento da máquina burocrática e da gastança fiscal, por buscar um igualitarismo baseado em um otimismo antropológico utópico.

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Boletim da Liberdade: Autores como Carlos Lacerda, Meira Penna, Donald Stewart Jr. e Joaquim Nabuco não são tão lidos pela nova geração de liberais como Mises e Hayek. Por que você considerou que eles são importantes para se entender a nova direita e, ao mesmo tempo, deixou de lado autores como Ayn Rand, Milton Friedman e Rodrigo Constantino?

Lucas Berlanza: Cada caso é um caso, então vamos por partes. Em relação a Rodrigo Constantino, tenho a enorme honra de contar com seu prefácio e uma infinidade de motivos para ser grato a ele em toda a minha ainda curtíssima trajetória. Contudo, como explico também na Introdução, priorizei a “estrutura narrativa” e teórica do livro; a ideia era usar o mínimo possível os autores brasileiros atuais, e trabalhar majoritariamente com suas fontes matriciais. Em vez do Rodrigo, do Morgenstern, do Catharino, eu queria o Mises, o Hayek, o Burke, o Kirk. As poucas exceções (Bruno Garschagen e Olavo de Carvalho, por exemplo) estão devidamente justificadas no livro.

Ayn Rand é mencionada no ensaio sobre Merquior, e Milton Friedman, no ensaio sobre Roberto Campos, em uma parte em que abordo o histórico debate entre Hayek e Keynes. Não estão, é verdade, como autores em livros próprios na seleção, parcialmente por limitações de espaço, e também porque, confesso, não fizeram parte muito direta da minha própria formação de pensamento. No entanto, encorajo o leitor a entender o livro como um “guia” sintético a ser compreendido como um todo, no conjunto dos ensaios em si mesmos, e não uma mera coletânea de autores-referência; a menção deles nos textos também vale como reconhecimento de sua importância nessa história. Você poderia ter questionado, por exemplo, a presença de Richard Stroup, sobre quem quase ninguém deve ter ouvido falar; mas eu queria inserir a grande contestação que nos é feita sob o aspecto da ecologia, como se a direita fosse inerentemente inimiga da preservação do meio ambiente. Por isso inseri sua obra “Eco-nomia” na coletânea. Ayn Rand é muito mais conhecida, mas uma obra específica não seria tão caracteristicamente ligada ao tema quanto o opúsculo de Stroup.

Encorajo o leitor a entender o livro como um “guia” sintético a ser compreendido como um todo, no conjunto dos ensaios em si mesmos, e não uma mera coletânea de autores-referência; a menção deles nos textos também vale como reconhecimento de sua importância nessa história.

Carlos Lacerda e Joaquim Nabuco tomam parte no capítulo que aborda diretamente o Brasil. Há um certo quê de “dever-ser” nesse capítulo, porque eu gostaria que os antecedentes nacionais das ideias liberais e conservadoras fossem mais importantes no movimento; mas eles também cumprem o papel de mostrar que há uma “nova direita” porque existiu uma “velha” – ou se quiserem, “velhos” liberais e conservadores no Brasil. Para entender o “fenômeno”, é útil – e eu diria urgente – constatar que ele não é inédito ou alienígena ao nosso país. Tem seus antecedentes ideológicos, de princípios. Meira Penna e Donald Stewart Jr. também cumprem esse papel de certa forma, mas representam, ao mesmo tempo, o esforço institucional do IL, pioneiro no Brasil, e também, respectivamente, no caso do primeiro, considerações sobre o liberalismo e o conservadorismo lidando com as matrizes patrimonialistas e estatizantes do Brasil, e no caso do segundo, uma exposição sintética, por um autor representativo da própria história dos think tanks liberais brasileiros, das ideias principais do pensamento liberal.

Boletim da Liberdade: Das obras resenhas, você tem alguma preferida? E qual livro você indicaria como o mais importante para alguém que queira ter o primeiro contato tanto com o liberalismo quanto com o conservadorismo?

Lucas Berlanza: Não saberia destacar um favorito. Há algumas que certamente me impactam menos, mas são muitas as que provocam forte impressão e admiração no leitor. Em relação a indicações, posso tomar por exemplo a minha experiência pessoal. Provavelmente, se a minha memória não me estiver traindo, o primeiro dos 39 livros selecionados que li foi “O Caminho da Servidão”, de Hayek. Acho que a trinca “O Caminho da Servidão”, “A Lei” de Bastiat e “Reflexões sobre a Revolução na França’ de Burke foi decisiva. E claro, não quero soar presunçoso, mas recomendo que leiam o meu livro. rs

Eu gostaria que os antecedentes nacionais das ideias liberais e conservadoras fossem mais importantes no movimento; mas eles também cumprem o papel de mostrar que há uma “nova direita” porque existiu uma “velha” – ou se quiserem, “velhos” liberais e conservadores no Brasil. 

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Boletim da Liberdade: Você tem apenas 24 anos e escreve há aproximadamente cinco no Instituto Liberal, fazendo portanto parte de uma nova geração de articulistas da assim chamada “nova direita”. Como você se classifica ideologicamente e como a sua concepção ideológica individual influenciou esse livro que você está lançando?

Lucas Berlanza: Gosto de dizer, e alguns amigos riem disso, como Hayek, que sou um “old whig burkeano”, mas travestido com as cores do Brasil. Isso quer dizer que, na acepção de Victor Hugo, Raymond Aron, José Murilo de Carvalho, Merquior e outros autores, eu me considero um “liberal conservador” – a despeito de muitos liberais e conservadores considerarem a expressão um oxímoro – e acredito que isso demande revestir tal pensamento com referências simbólicas e culturais do próprio país de origem, na mesma medida em que com o patrimônio da civilização. Não nego em momento algum, sequer na Introdução, que isso tem peso no caminho adotado para planejar o livro; se há muita subjetividade nele, quanto mais aquela que provém de algo tão geral e expressivo na minha mentalidade! Isso não me parece um problema; o livro é ainda mais autêntico porque é um testemunho de alguém que faz parte do grupo sobre o qual ele fala.

Boletim da Liberdade: Por fim, perguntamos quais são as expectativas para esse livro e se há já novos projetos no horizonte.

Lucas Berlanza: Minha expectativa é de que seja um bom começo, afinal publicar um livro é um sonho de infância – ainda que à época eu não supusesse que o tema do meu primeiro livro seria esse. Continuo com meu blog pessoal, o “Sentinela Lacerdista”, cujos artigos são replicados no blog do IL. Agora terei também um site com meu nome para reunir tudo que fizer – devidamente vinculado ao blog -, e certamente já tenho outros projetos editoriais em vista, inclusive um livro já sendo escrito a quatro mãos com um grande amigo. Cada coisa, porém, a seu tempo.

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Lançamento:

Local: Livraria da Travessa do Shopping Leblon – Rio de Janeiro – Av. Afrânio de Melo Franco, 290 – Loja 205-A

Data e Horário: 28 de junho – Quarta-Feira – Início às 18h

Mesa Redonda com Lucas Berlanza, Rodrigo Mezzomo, Alexandre Borges e Rodrigo Constantino (por vídeo)

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