Especial “V Semana da Liberdade”: saiba como foi o evento, painel por painel

O Boletim da Liberdade esteve presente no maior evento liberal do Nordeste e traz detalhes sobre a experiência em cada painel de palestras ou debates

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O time da V Semana da Liberdade (Foto: Reprodução / Facebook)
O time da V Semana da Liberdade (Foto: Reprodução / Facebook)

Fazia forte calor na cidade de Fortaleza. Muitos esperariam que a juventude preferisse desfrutar as praias encantadoras da região, repousar ou se deixar embalar por um aprazível forró sob alguma sombra. Não se imaginaria que tantos estudantes estariam reunidos no teatro Celina Queiroz, na Universidade de Fortaleza (UNIFOR), para ouvir falar em revolução cultural, Joaquim Nabuco, privatizações ou Islamismo. Pois foi esse o retrato da V Semana da Liberdade, organizada pelo Instituto Liberal do Nordeste (ILIN) em parceria com o Instituto Friedrich Naumann, a Fundação Edson Queiroz e o Instituto Mises Brasil.

O maior evento liberal do Nordeste acontecia em um auditório bem refrigerado, mas sua característica predominante repercutia a “temperatura” da própria cidade: o calor – no caso, calor humano. A equipe recebia com todo cuidado os palestrantes, saudava animadamente o público e se deslocava o tempo inteiro para suprir qualquer carência e resolver qualquer dificuldade. Tudo para que o encontro dos dias 2 e 3 de junho funcionasse perfeitamente e ficasse marcado na memória de quem o vivenciasse.

O Boletim acompanhou o evento do início ao fim. Do lado de fora, uma grande mesa com diversas publicações à venda, sobretudo clássicos do pensamento liberal – internacionais e nacionais. Do lado de dentro, uma pluralidade de vozes discursando sobre os mais diversos temas, inclusive com alguns convidados trazendo pontos de vista opostos. O presidente do ILIN, Rafael Saldanha, explica que essa é a nova investida do evento, inclusive com o propósito de robustecer o movimento liberal e fazê-lo “criar anticorpos”. Todos os painéis estarão reproduzidos em vídeo no canal da instituição no Youtube. Confira a seguir o que aconteceu em cada um deles:

Abertura e empresário homenageado

Nos dois dias, um grupo musical abriu o evento. No dia 2, a mesa de abertura foi composta pelo presidente do ILIN e a coordenadora do programa de Mestrado e Doutorado da UNIFOR, Gina Pompeu. Rafael Saldanha exaltou a universidade por ceder novamente seu espaço ao evento e destacou sua própria experiência como estudante. Já Gina Pompeu afirmou que tem uma opinião favorável à presença do Estado em mais áreas do que provavelmente defenderiam muitos dos presentes, mas que tem orgulho de sua universidade ao permitir que um evento como esse se passe, mais uma vez, em suas dependências.

O empresário homenageado foi Jayme Leitão, diretor da Reata Arquitetura e Engenharia. Bastante bem-humorado, Jayme discursou sobre as adversidades do relacionamento com o Estado, fazendo referência ao legado negativo da cultura ibérica para a dimensão patrimonialista do país. Apesar disso, declarou sua convicção em um futuro melhor: “Sou fundamentalmente otimista”.

Painel 1: Direito, revolução cultural e autoritarismo

O primeiro painel abordou aspectos do Direito, tanto em âmbito nacional quanto internacional, com palestras que faziam referência aos excessos e arroubos “iluministas” de certos juristas, crentes de que é seu dever tutelar o povo e os poderes democráticos. O professor Milton Gustavo Vasconcelos, advogado, doutorando e mestre em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, fez uma exposição ressalvando justamente essa arrogância fatal dos novos juristas, cujo trajeto perigosamente medíocre coloca em risco o nosso futuro e equilíbrio institucional.

A professora Uinie Caminha, graduada em Direito pela Universidade do Ceará e doutora pela Universidade de São Paulo, foi na mesma linha, também com muito bom humor, atacando uma sucessão de decretos e projetos de lei intervencionistas e politicamente corretos. O painel foi encerrado por Rodrigo Saraiva Marinho, ex-presidente do ILIN e candidato a vereador nas últimas eleições pelo PSL/Livres, que formulou uma análise comparativa entre diversas Constituições, particularmente a Mexicana de 1917, a da União Soviética de 1918 e a brasileira de 88, como forma de encontrar as raízes dos aspectos dirigistas de nossa Carta Magna.

Rafael Saldanha, presidente do ILIN, e (Foto: Reprodução / Facebook)
Rafael Saldanha, presidente do ILIN, e Gina Pompeu, da UNIFOR (Foto: Reprodução / Facebook)

Painel 2: História do liberalismo no Brasil: de Nabuco a Merquior

O segundo painel do evento trazia uma reflexão sobre expoentes históricos do pensamento liberal no Brasil, em seus diversos matizes e manifestações. Apesar de estruturada no formato de palestras individuais, a mesa exibiu certo nível de interação entre os convidados, que algumas vezes interrompiam as falas uns dos outros para tecer comentários. O mediador foi o historiador Ávilla Regadas, dono da página “History to go”.  Ele também participou da discussão, reagindo aos comentários dos demais.

Quem abriu a mesa foi o carioca Lucas Berlanza, editor do site Sentinela Lacerdista, colunista do Instituto Liberal e autor do próximo lançamento da Livraria Resistência Cultural, “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”. Ele resumiu os pensamentos e trajetórias de diversas personalidades ao longo de toda a história nacional, desde o período pré-independência até o movimento liberal moderno. Já Eduardo Cesar Maia, professor da Universidade Federal de Pernambuco nas áreas de Comunicação e Literatura e organizador da Revista Café Colombo, detalhou especificamente o pensamento e as realizações de dois autores: Álvaro Lins (1912-1970) e José Guilherme Merquior (1941-1991).

Mesa-redonda: A família no século XXI

Um dos momentos mais chamativos de todo o evento foi o acirrado debate ocorrido nesta mesa, com a presença de profissionais e acadêmicos do Direito com visões distintas – Herika Marques e Antônio Jorge -, o jovem pastor Yago Martins – conhecido pela viralização de seu vídeo negando a existência do casamento gay – e a mediação de Evandro Faria. Herika, com tendências assumidamente “à esquerda”, afirmou que tinha sido trazida a uma “emboscada”, provocando risos na plateia. O enfrentamento repleto de frases espirituosas tornou o debate uma verdadeira atração, com muitas gargalhadas e palmas aos participantes.

Painel 3: Privatizações no Brasil – balanços e perspectivas

O urgente tema das privatizações como caminho para sanear as contas nacionais e dinamizar a economia brasileira não poderia deixar de ser discutido no atual cenário. O pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Adolfo Sachsida, conhecido pela militância liberal-conservadora que realiza em Brasília, e Jefferson Figueiredo, que integra a própria diretoria do ILIN, tomaram parte nesta mesa.

Junto a eles estava a professora Clarissa Sampaio Silva, mestre em Direito pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade de Lisboa, que protagonizou o momento mais impactante deste painel ao confessar que sente entusiasmo com a possibilidade de votar em Lula. Um ensaiar de vaias se seguiu e ela disse: “Mas vocês não são liberais? Não são democratas?” e acabou aplaudida. Presente ao evento, o diplomata Gustavo Maultasch de Oliveira comentou: “Não existe liberdade em abstrato, mas apenas provas diárias de exercício da liberdade. E nada testa melhor as nossas convicções liberais do que os contextos de dissenso, como pude testemunhar neste final de semana”.

O Poder e suas entranhas: como a Lava Jato expôs as falhas das instituições brasileiras e o que fazer quanto a isso

Pela primeira vez no evento e no Ceará, o palestrante Adriel Santana, advogado pela Universidade Estadual de Santa Cruz e especialista em arbitragem pela Fundação Getúlio Vargas, abriu sozinho o segundo dia com uma reflexão sobre os conflitos jurídicos e institucionais que o país vive em consequência das pressões exercidas pela Lava Jato e as investidas consideradas autoritárias de setores do Judiciário, como o Supremo Tribunal Federal.

Debate: A questão islâmica e o multiculturalismo no ocidente pós-moderno

O problema migratório e os desafios como civilização e cultura que o Ocidente encara no relacionamento com o mundo islâmico, agravado em um contexto de crise na Síria e atentados terroristas, não deixou de ser enfocado na Semana da Liberdade. Vale lembrar que os mais recentes atentados na Inglaterra aconteceram durante a realização do evento. Os professores Alexandre Bacelar, bacharel em Direito pela Universidade Estadual do Piauí e Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, e a cearense Mariana Cartaxo, com mestrado e ligada à área de Direito do Centro de Ciências Jurídicas, protagonizaram um debate bastante esclarecedor e aprofundado sobre as raízes históricas da dimensão política do Islamismo e as causas da tensão em vigor.

Painel 4: A liberdade na era da Internet

Diogo Costa, o diretor executivo da Fundação Indigo (ligada ao PSL/Livres), doutorando em Política Econômica pela King’s College London e mestre em Ciência Política pela Columbia University, dividiu a mesa com Felippe Hermes, diretor do extremamente popular site Spotniks, com mediação de Raduán Melo, sobre a interface entre o pensamento liberal e a dinâmica do moderno mundo virtual, conectado em redes.

Felippe Hermes se limitou a responder perguntas de Raduán e fez uma provocação, dizendo que dividiu a mesa no mesmo evento em edições anteriores com Rodrigo Constantino e, portanto, em sua opinião, teria havido “um avanço significativo” no perfil dos convidados. Diogo Costa fez uma interessante explanação com amplo recurso a slides sobre uma rede social em que se postam imagens livremente, explicando a dinâmica da ordem espontânea e das negociações no relacionamento entre os seus participantes.

Big Band UNIFOR abrindo o evento (Foto: Reprodução / Facebook)
Big Band UNIFOR abrindo o evento (Foto: Reprodução / Facebook)

Painel 5: Globalização, migrações e o mercado sob a influência dos blocos governamentais

O penúltimo Painel abordou temas como a União Europeia e os dados demográficos e sociais relacionados aos fluxos migratórios, sob diferentes perspectivas. Os dois palestrantes usaram bastante o recurso aos gráficos e slides em suas apresentações. O primeiro a falar foi o presidente do Instituto Liberal de São Paulo, Marcelo Faria, seguido do gaúcho Ricardo Gomes, secretário de Desenvolvimento Econômico de Porto Alegre, membro da Mont Pelérin e vereador eleito por Porto Alegre, que arrancou muitas risadas do público ao, por exemplo, pedir “desculpas” em nome de seu estado pelas lideranças políticas de qualidade duvidosa que gerou.

Palestra: Meio ambiente e capitalismo

Tal como Adriel Santana, Adriano Gianturco, professor na Ibmec e PhD da Universita degli Studi di Genova, conduziu sozinho seu discurso nesta seção sobre meio ambiente. O palestrante conquistou o público pela sua disposição em dizer o que pensa, por mais polêmico que pareça. Gianturco, muito espirituoso, afirmou que seu grau de ceticismo em relação ao ambientalismo é o mais extremo possível, e encerrou sob uma ovação ao dizer que, “entre o homem e o panda, deixem o panda morrer”.

Painel 6: 1917 a 2017 – Os Ecos da Revolução Russa

A V Semana da Liberdade se despediu com uma grande imersão ao universo da Rússia, convulsionada pela revolução bolchevista. A economista Cibele Bastos, que já trabalhou no Instituto Liberal, do Rio de Janeiro, hoje pertence à direção do ILIN, e é figura carimbada na história de instituições e grupos de estudo como o Dragão do Mar, no próprio Ceará, iniciou a mesa com uma explanação sobre o impacto desorientador da revolução na mentalidade popular dos russos, baseada em seu elevado interesse pela literatura daquele país.

O economista e advogado Josesito Padilha fez uma abordagem ampla sobre o contexto histórico, político e social que permitiu a ascensão do bolchevismo marxista-leninista ao poder. Finalmente, Christian Lynch, professor de Ciência Política na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, especialista em liberalismo e conservadorismo no Brasil, aceitou o desafio de sair da zona de conforto e falar sobre o socialismo, particularmente sobre as influências ideológicas do bolchevismo sobre os comunistas brasileiros.

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