Estudante de jornalismo, religioso e conservador: conversamos com Nando Castro, uma voz destoante de seu meio

Em entrevista exclusiva ao Boletim, o jovem explica as dificuldades enfrentadas por um estudante de Jornalismo na academia e reflete sobre os desafios atuais oferecidos pela profissão

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Nando Castro (Foto: Reprodução / Facebook)
Nando Castro (Foto: Reprodução / Facebook)

Ele se define no seu perfil pessoal no Facebook como “católico, pró-vida, fã de armas e bacon” e “antimarxista”. Com o fortalecimento de ideias conservadoras e liberais no país, evidenciado pelas redes sociais, essas referências não ofereceriam, por si sós, um atrativo especial, não fosse por um detalhe: ele também é estudante universitário. De Jornalismo.

Nando Castro é aluno de Olavo de Carvalho e professa assumidamente convicções “de direita”, mesmo estudando Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco. Ele conseguiu conquistar uma respeitável credibilidade ao publicar notícias em primeira mão nesse mesmo perfil pessoal, fazendo uso das suas fontes no meio político. Essa atividade, bem como a sua disposição clara por seguir o caminho jornalístico, o levou a proferir duas palestras na Universidade de Pernambuco, e em breve ele estará discursando sobre o aborto em uma arena de debates em Recife.

Independentemente do que diga o senso comum, quais são as reais dificuldades de um universitário de Jornalismo no Brasil de hoje, em que tanto se acusa a academia de dificultar o pensamento divergente, que fuja às cartilhas do Marxismo ou da Escola de Frankfurt? O jovem Nando, de 20 anos, abre o jogo sobre essa e outras questões relacionadas à profissão em entrevista exclusiva para o Boletim.

Boletim da Liberdade: Estudante de Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, você é aluno de Olavo de Carvalho e professa convicções à direita. Como seu pensamento seguiu essa direção e que tipo de obstáculos o ambiente universitário ou estudantil em geral ofereceu a isso?

Nando Castro: Bom, costumo dizer que a realidade me empurrou para a direita. Meu pensamento segue os dados da realidade, tudo aquilo que os meus olhos veem. Ademais, convivi muito com o meu avô, que era católico, franciscano e um tanto quanto conservador – creio que no sentido “scrutoniano” da palavra.

Com relação ao ambiente universitário, já tentaram me hostilizar diversas vezes, não só pelos meus posicionamentos com relação à política e por ser aluno do professor Olavo, mas também pela minha inabalável fé católica e meu firme posicionamento contra o aborto, porque a moda agora é dizer que a Umbanda é a única religião que sofre preconceito e que o aborto não é um assassinato. É uma gracinha. No entanto, nunca abaixei a cabeça e enfrento tanto colegas como professores sempre que necessário. Talvez seja por isso que eu siga numa relativa paz com os colegas da minha sala, mesmo sendo uma das pessoas mais impopulares de lá. Eles me detestam, mas sabem que não brinco em serviço.

Alguns até me tratam bem e possuem certo afeto comigo. Já cheguei a receber vaias numa ocasião por ter externado a minha opinião, mas sabe, ser vaiado é a melhor coisa que aqueles que me detestam podem fazer por mim, compreende? Ou você acha que eu consigo conceber gente do pior tipo da esquerda me aplaudindo? Se isso acontecer comigo eu perderei o sono, pois certamente estarei fazendo alguma besteira. (risos)

Nunca abaixei a cabeça e enfrento tanto colegas como professores sempre que necessário. Talvez seja por isso que eu siga numa relativa paz com os colegas da minha sala, mesmo sendo uma das pessoas mais impopulares de lá. Eles me detestam, mas sabem que não brinco em serviço.

Boletim da Liberdade: Você já discursou em eventos sobre o comportamento da imprensa contemporânea, notadamente sua abordagem enviesada nos próprios noticiários. Em que pé você enxerga essa realidade hoje? É possível que a cura venha do próprio Jornalismo? Como um jornalista preocupado com esse estado de coisas pode colaborar para combatê-lo?

Nando Castro: Aquilo que começa errado, termina errado. Nas universidades, o foco se dá em vitimizar supostas minorias e fazer do jornalista o salvador daquelas pessoas, pois ele é bonzinho e sensível com as causas que, por uma curiosa coincidência, são todas de esquerda. Muitos professores e alguns convidados que vão palestrar em universidades, com raríssimas exceções, apresentam um autoritarismo formidável ao dizerem que “a mídia deve ser regulamentada” e que “o Jornalismo deve dar voz a fulano ou beltrano”. Não se trata disso.

O produto do Jornalismo é a condensação narrada de uma realidade existente naquele momento ou que já existiu, sendo o conteúdo daquele fato algo interessante e/ou passível de audiência para o público. É isso. O Jornalismo não é para dar vez e voz a quem quer que seja. Ele serve para relatar os fatos, documentar os detalhes e apresentar ao público, seja sobre a roubalheira em Brasília ou um cano estourado na esquina de um beco na Vila Nhocuné. Agora, o efeito prático do Jornalismo, aí sim, pode resultar em soluções de determinados problemas, fortalecimento de algo ou alguém, e por aí vai.

No entanto, na academia, tentam transformar o jornalista num anjinho celestial que vai derrubar o poder das Organizações Globo ao seguir o viés marxista na área jornalística. Não vejo perspectiva de melhora do Jornalismo nas universidades se a forma a ser seguida permanecer sendo essa. Minha forma de combater esse Jornalismo chinfrim é sendo eu mesmo, oras. Muitas pessoas se informam com o que publico, confiam em mim, me dão credibilidade, pois sabem que não dou trégua para o politicamente correto, falo o que penso e ponto final.Além disso, busca estudar os grandes jornalistas esquecidos (propositadamente ou não) pela universidade. Ou você acha que na academia vão nos recomendar ler célebres jornalistas como Carlos Lacerda, Otto Lara Resende, Stanislaw Ponte Preta, Paulo Francis, Paulo Mendes Campos? O único Paulo que recomendam na universidade é o Freire, que pelo bem da minha sanidade mental e integridade do meu conhecimento, pretendo nunca mais ler.

Boletim da Liberdade: Têm feito sucesso as suas publicações no Facebook trazendo informações quase em tempo real, eventualmente atribuídas às suas próprias fontes na política. Qual o propósito desse exercício de Jornalismo? O que te motiva a fazer isso?

Nando Castro: Bom, é fato público e notório que eu faço uso quase que assíduo do Facebook para publicar as notícias, principalmente em virtude das boas fontes que tenho. Gosto de antecipar os acontecimentos, informar em primeira mão. Em março de 2016, por exemplo, recebi de uma fonte em Brasília a notícia de que o ex-presidente Lula havia aceitado integrar a Casa Civil. Dei o furo no Facebook e dois dias depois o fato se confirmou. As pessoas adoraram e minha credibilidade aumentou, principalmente por conseguir analisar os fatos e prever certos acontecimentos, como a renúncia do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha – com quase uma semana de antecedência eu informei as razões pelas quais ele iria renunciar à Presidência da Casa.

Na academia, tentam transformar o jornalista num anjinho celestial que vai derrubar o poder das Organizações Globo ao seguir o viés marxista na carreira jornalística. (…) Minha forma de combater esse Jornalismo chinfrim é sendo eu mesmo.

Meu Jornalismo no Facebook é uma espécie de diário, onde eu faço algo como uma documentação das notícias que foram relevantes para mim no dia. Não posto tudo, obviamente, pois não dá para se tornar um jornalista shitposter, principalmente porque o meu tempo não permite isso. Mas o que me motiva a usar o Facebook é a facilidade em publicar, a qualidade do público que me acompanha – pois são pessoas que leem bastante, possuem um leque de conhecimentos e gostam de ver isso aplicado no Jornalismo. Publico links de portais com as notícias quando não estou com tanto tempo, mas quando posso, escrevo diretamente as notícias aplicando o modo que chamo de 2 ou 4 por 1, onde narro o fato ocorrido nos 2 ou até 4 parágrafos iniciais e dedico o último parágrafo para a exposição da minha opinião sobre o fato.Então a pessoa pode até discordar sobre a minha opinião, mas está devidamente informada sobre o acontecido. Claro, não tenho opinião formada sobre tudo, então muitas vezes ocorre de eu apenas relatar a notícia, de modo que o leitor entra no meu perfil, se informa sobre os fatos e muitas vezes têm acesso ao que penso sobre o fato. Essa conduta está sendo, para mim, uma forma interessante de se fazer Jornalismo, principalmente pelo grande alcance que tenho obtido. Mas claro, compartilho uns memes vez ou outra porque não sou de ferro, né? (risos)

Nando Castro em Brasília no acampamento pelo impeachment de Dilma (Foto: Reprodução / Facebook)
Nando Castro em Brasília no acampamento pelo impeachment de Dilma (Foto: Reprodução / Facebook)

Boletim da Liberdade: Quais os caminhos profissionais a serem seguidos por um jovem jornalista nos dias de hoje que rejeite as imposições dogmáticas da esquerda e deseje um Jornalismo saudável? Aliás, o que seria um Jornalismo “saudável”? As novas mídias, a possibilidade do empreendedorismo, o Jornalismo convencional: como você enxerga todas essas vias e o que elas têm a oferecer?

Nando Castro: Talvez eu consiga responder essa pergunta integralmente daqui a uns 15 anos, mas, por ora, a meu ver, o Jornalismo saudável se dá no sentido de ler bastante, relatar o fato como ele é e pensar de forma dialética. Por exemplo, um jornalista político deve analisar da seguinte forma: como um comunista olharia essa notícia? Como um social democrata interpretaria esse fato? O que pensaria um liberal diante desse texto? E o que um conservador comentaria dessa notícia? E por aí vai, entende? O processo de contrastar os posicionamentos reais é necessário para a construção de um Jornalismo que não se distancie da realidade. Não se trata de aliviar para um ou outro, e sim deixar a matéria plenamente concatenada com o fato e a magnitude do ocorrido.

Boletim da Liberdade: Qual, na sua opinião, a importância do escritor e filósofo Olavo de Carvalho e do Curso Online de Filosofia (COF)?

Nando Castro: Olavo é o último galho da árvore de um Brasil que já foi florido de intelectualidade e maturidade para a Filosofia e análise da realidade. O COF é um bunker onde estão as sementes dessa referida árvore e os procedimentos que são necessários para que a plantação, irrigação e colheita dos frutos seja exitosa. Para mim, é uma válvula de escape, onde encontro lucidez e conhecimento para uma vida inteira.

Boletim da Liberdade: Agradecemos pela entrevista e encerramos perguntando quais são suas metas de vida imediatas e remotas; o que podemos esperar de Nando Castro?

Nando Castro: Bem… (risos) Esperem muita “treta” e um Jornalismo sério, firmado em não ocultar do leitor a realidade dos fatos. Minha meta de vida, imediata, é seguir escrevendo e aprendendo bastante, porque tenho 20 anos e, vamos combinar, o jovem geralmente é um sujeito que tenta ser perspicaz e quer ser levado a sério a todo custo, tendo as soluções para tudo no mundo. Economia? Ah, tributa os ricos. Pobreza? Bom, vamos distribuir renda. Desemprego? Concurso público. Jornalismo tendencioso? Simples, regulamenta a mídia. Compreende?

Sabemos que não é bem assim. Então, no momento, minha meta é viver a vida com a realidade que tenho e seguir me juntando aos mais velhos para também buscar o conhecimento e as experiências da vida, a fim de chegar na maturidade sem ser um mero falador. Por enquanto, busco estudar e apresentar ao público aquilo que meus olhos veem. Apesar da pouca idade, creio que seja a minha seriedade em relatar os fatos, destemor em apresentar minhas convicções e a calmaria em reconhecer meus eventuais equívocos que fazem com que as pessoas queiram ver as minhas publicações e opiniões. Aos poucos, tento viabilizar a aplicabilidade dos meus sonhos. Quero ser um verdadeiro jornalista, uma fonte confiável, que relata os fatos em sua plenitude para o leitor, porque para ser um falador é simples, basta ser colunista na Mídia Ninja.

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