Relembre a trajetória do economista liberal Roberto Campos, que completaria um século de vida esse mês

O centenário de Roberto de Oliveira Campos, no dia 17 de abril, é motivo de comentários em grandes veículos jornalísticos, como o jornal O Globo

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Foto: Reprodução / O Globo
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Matérias em jornais de grande circulação e lançamentos editoriais são algumas das homenagens que marcam, a partir deste dia 17 de abril, o centenário de Roberto de Oliveira Campos, falecido desde 2001. O homem que se tornou símbolo da pregação das bandeiras liberais no Brasil, a ponto de ser apelidado de Bob Fields pelos socialistas e trabalhistas no país, teve uma trajetória versátil, repleta de papeis e atividades diferentes.

Nascido em Cuiabá, o ainda jovem mato-grossense curiosamente chegou a estudar Filosofia e Teologia para se ordenar padre, mas abandonou o seminário em 1937 para se tornar diplomata e economista no Rio de Janeiro. A esses dois ofícios, ainda se somariam a atividade de articulista e polemista, conhecido por suas frases que não poupavam acidez nas críticas à esquerda, e a imersão na carreira política.

Roberto Campos como funcionário público: diplomata, embaixador e ministro

Toda essa trajetória está resumida em seu best seller A Lanterna na Popa, um livro de memórias que lança uma visão retrospectiva sobre quase toda a história brasileira e alguns acontecimentos internacionais no século XX. Na obra, Roberto Campos revela os importantes estadistas com que travou contato em sua carreira diplomática, como a própria Margaret Thatcher, George Bush, o presidente Kennedy e o chanceler alemão Konrad Adenauer. Também no exterior, travou contato com alguns dos principais economistas do mundo, participando da própria Conferência de Bretton Woods.

No Brasil, país onde, segundo ele mesmo, “a burrice tem um passado glorioso e um futuro promissor”, Roberto Campos trabalhou no segundo governo de Getúlio Vargas, quando esteve entre os criadores do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, e depois se tornou funcionário do consulado brasileiro em Los Angeles. Também integrou a equipe de elaboração do Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek e foi embaixador em Washington no governo João Goulart e em Londres, no governo de Ernesto Geisel. Todos presidentes com os quais teve profundas discordâncias, algumas bastante sérias, como seu descontentamento com a revolta de JK contra o FMI.

Seu momento de maior destaque, porém, foi certamente o ministério do Planejamento no primeiro governo militar, o do presidente Castelo Branco, em parceria com Otávio Gouveia de Bulhões. Criticado por alguns liberais atualmente por iniciativas da época como a criação do Banco Central do Brasil, o Banco Nacional da Habitação, o FGTS, o Estatuto da Terra e a indexação de preços, Roberto Campos ficou conhecido pelo Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), que controlou a emissão de moeda e crédito, cortou despesas e conseguiu sucesso em reduzir muito a inflação.

Ele considerou até o fim da vida que Castelo Branco havia sido o presidente brasileiro com a visão mais ampla de um projeto nacional de modernização, que lamentava não ter sido desenvolvido por seus sucessores, e reputava a Constituição de 1967, do ponto de vista econômico, como a “menos inflacionista do mundo”, pelos limites que impunha ao aumento dos gastos públicos.

Político e intelectual do liberalismo

Em seus últimos anos, Roberto Campos se aventurava na carreira política, tendo sido senador e deputado federal pelo PDS. A cena em que, adoentado, fez questão de ir votar no impeachment do presidente Fernando Collor se tornou memorável. Tanto na política quanto nos livros e textos que publicava em grandes jornais, as ideias de Roberto Campos evoluíram sempre na direção de um pensamento mais simpático à liberdade de mercado e à redução drástica da esfera estatal.

Admirador e amigo do economista liberal brasileiro Eugênio Gudin (1886-1986), que havia sido ministro durante o breve período do governo Café Filho, Roberto Campos terminou sua trajetória intelectual como um adepto das ideias do economista austríaco Friedrich Hayek (1899-1992). Dizia que suas simpatias keynesianas dos primeiros dias estavam superadas, e que o grande desafio que o Brasil precisava derrotar era o nacional-populismo que caracterizava a tônica da sua classe política.

Nacional-populismo que ele atacou bastante no processo de elaboração da Constituição de 1988. Para Roberto Campos, a Nova República já nascia sob o impacto de distorções demagógicas e do que ele chamava de “doença da constitucionalite”, uma crença em que o excesso de determinações legais tornaria certos “direitos” abstratos uma realidade automática. Também atacava o intervencionismo autoritário na economia que consagrava, em consequência da busca por esses “direitos”, bem como o modelo presidencialista com arremedo de parlamentarismo que resultaria no que hoje é chamado de “presidencialismo de coalizão”. Todas discussões que, qualquer que seja a opinião do leitor, ainda permanecem muito atuais.

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